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Educação médica em quatro países: Rússia, Reino Unido, Estados Unidos e Brasil

Este artigo é um guia prático para estudantes de Medicina, médicos e enfermeiros que querem entender como funciona a formação médica na Rússia, no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Brasil, e quais são as principais diferenças entre esses sistemas.

01/07/2026
Educação médica em quatro países: Rússia, Reino Unido, Estados Unidos e Brasil

Introdução

O caminho entre a candidatura à universidade e a atuação independente como médico leva, em média, de 10 a 16 anos em quase qualquer país do mundo, mas a estrutura desse percurso varia bastante. Em alguns lugares, Medicina é um curso em que o estudante ingressa logo após a escola; em outros, só é possível entrar depois de completar quatro anos de graduação universitária. Em alguns sistemas, a residência é obrigatória para todos; em outros, o médico pode começar a atender pacientes logo após receber o diploma.

Uma observação importante desde o início: os sistemas de educação médica estão em constante reforma. Na Rússia, em 2025–2026, estão mudando as regras de ingresso por vagas direcionadas e de admissão de formados em colleges médicos nas universidades. No Reino Unido, uma lei aprovada em março de 2026 alterou as prioridades na distribuição de vagas de treinamento médico. Nos Estados Unidos, estão mudando os critérios mínimos de aprovação no USMLE Step 2 CK. Os números e regras deste artigo estão atualizados até meados de 2026, mas quem está se preparando para ingressar em um curso ou mudar de país deve sempre consultar as fontes primárias — os sites dos órgãos reguladores, como o Ministério da Saúde da Federação Russa, GMC, ECFMG/NRMP e CFM/CNRM.

1. Rússia: curso de especialista + ordinatura

Estrutura do percurso

O modelo russo é uma sequência de níveis, e cada um deles concede um determinado conjunto de direitos para a prática médica:

Educação profissional secundária (SPO) — colleges médicos. O ingresso pode ocorrer após o 9º ou o 11º ano escolar, e a formação dura de 2 a 4 anos. Os formados tornam-se feldshers, enfermeiros, parteiras ou técnicos de laboratório — ou seja, profissionais de nível médio da área da saúde, mas não médicos.

Curso de especialista — o principal programa universitário para futuros médicos. O ingresso ocorre geralmente após o 11º ano, com base nos resultados do exame nacional russo em língua russa, biologia e química, ou após a conclusão de um college médico. A duração é de 6 anos para Medicina Geral, Pediatria e Medicina Preventiva; Odontologia e Farmácia costumam durar 5 anos.

Acreditação do especialista — após o diploma, o formado passa por uma acreditação primária, que inclui prova teórica, avaliação de habilidades práticas e resolução de casos clínicos. Somente depois disso ele pode exercer a profissão de forma independente, geralmente como terapeuta distrital, pediatra ou dentista.

Ordinatura — etapa posterior de especialização, por exemplo em cirurgia, cardiologia, oncologia e outras áreas. Em média, dura cerca de 2 anos, podendo ser mais longa em algumas especialidades.

Pós-graduação acadêmica — caminho para quem deseja seguir carreira científica ou docente, geralmente com duração de 3 a 4 anos em tempo integral.

A internship como etapa separada foi abolida em 2016. Antes, ela era um ano obrigatório de prática entre o curso de especialista e o trabalho independente.

Pontos importantes em 2025–2026

A partir de 1º de setembro de 2025, foram limitadas as possibilidades de ingresso na universidade por meio de exames internos para formados em colleges médicos. Agora, esse caminho é permitido apenas para áreas relacionadas à formação anterior do candidato.

No ano acadêmico de 2025/26, a proporção de vagas financiadas pelo Estado com contrato de serviço obrigatório depende da área: por exemplo, 70% em Medicina Geral, 75% em Pediatria e até 100% em algumas especialidades deficitárias da ordinatura. As novas regras de formação direcionada entraram em vigor em 1º de março de 2026.

As mensalidades variam bastante: de cerca de 200 mil a 1 milhão de rublos por ano, dependendo da universidade e da especialidade; nos colleges médicos, o custo varia aproximadamente de 50 mil a 370 mil rublos por ano.

O que isso significa na prática

Após concluir o curso de especialista e passar pela acreditação, o médico russo já pode trabalhar como terapeuta ou pediatra. Isso difere dos sistemas do Reino Unido e dos Estados Unidos, onde após o diploma existe uma etapa obrigatória de formação clínica geral antes da especialização. A residência no sentido usado em muitos países estrangeiros não existe na Rússia como termo formal. O equivalente mais próximo é a ordinatura, mas os diplomas de ordinatura não são reconhecidos automaticamente no exterior, e médicos que se mudam para outro país geralmente precisam validar sua qualificação por meio de exames locais.

2. Reino Unido: escola médica + Foundation Programme + Specialty Training

Estrutura do percurso

Escola médica (Undergraduate Medicine, MBBS/MBChB) é a primeira etapa da formação médica no Reino Unido. Normalmente, o estudante ingressa nesse programa logo após a escola, e o curso padrão dura 5 anos. Se o candidato já tiver uma graduação, ele pode se candidatar ao Graduate Entry Medicine, um programa acelerado que geralmente dura 4 anos. Em alguns casos, a formação pode durar 6 anos: por exemplo, quando o curso inclui um foundation/gateway year para estudantes com uma trajetória acadêmica não tradicional, ou um ano integrado adicional que leva à obtenção de outro diploma. Ao final do curso, os estudantes realizam o UK Medical Licensing Assessment (UKMLA), uma avaliação final unificada que substituiu gradualmente vários mecanismos anteriores usados para avaliar a preparação dos formandos para a prática médica.

Foundation Programme — etapa obrigatória de 2 anos logo após a graduação, composta por FY1 e FY2. Não é uma especialização, mas uma rotação por 5 a 6 especialidades diferentes, em blocos de aproximadamente 4 meses. Essa etapa oferece uma exposição estruturada a diferentes áreas da medicina, sob supervisão de médicos mais experientes. O registro completo no General Medical Council (GMC), o principal órgão regulador, só é concedido após a conclusão do FY1.

Specialty Training — formação especializada. Existem dois formatos principais:

Run-through training — o médico se candidata uma vez e, se cumprir os requisitos de progressão, segue até o fim do programa sem precisar passar por uma nova seleção competitiva. Exemplos incluem medicina de família, pediatria, obstetrícia e ginecologia.

Uncoupled training — primeiro o médico completa um core training, por exemplo em clínica médica ou cirurgia, e depois participa de uma nova seleção competitiva para uma especialização mais específica no nível ST3.

Essa etapa geralmente dura de 5 a 8 anos, dependendo da especialidade.

CCT (Certificate of Completion of Training) — ao concluir a especialização, o médico recebe esse certificado e é incluído no Specialist Register ou no GP Register do GMC. Depois disso, pode trabalhar de forma independente como consultant, aproximadamente equivalente a attending physician, ou como médico de família.

No total, o caminho entre o ingresso na escola médica e o status de consultant costuma levar cerca de 14 anos ou mais.

Regulação e requisitos linguísticos

Todo o sistema é regulado pelo GMC. Ele aprova os currículos do Foundation Programme e de 65 especialidades e 31 subespecialidades. Para médicos formados no exterior (IMGs) que desejam obter registro completo no GMC, geralmente é exigido o exame PLAB. Desde 2024, o conteúdo do PLAB está alinhado ao UKMLA. Também costuma ser necessária a comprovação de proficiência em inglês por meio do IELTS ou OET.

Mudança importante em 2026

Em 5 de março de 2026, foi aprovado o Medical Training (Prioritisation) Act 2026. O Reino Unido introduziu a priorização na distribuição de vagas do Foundation Programme e do Specialty Training. No Foundation Programme, a prioridade é dada a formados em escolas médicas britânicas e a alguns grupos equivalentes. No recrutamento para especialidades, a prioridade na etapa de oferta de vagas é dada a candidatos de determinadas categorias prioritárias, incluindo formados em escolas médicas do Reino Unido e médicos com experiência substancial no NHS. Isso tornou significativamente mais difícil o acesso de IMGs a vagas de treinamento a partir do ciclo seletivo de 2026, um ponto importante para quem planeja se mudar para o Reino Unido para fazer especialização.

Outra característica dos últimos anos é que, segundo dados de 2023, mais de 77% dos médicos que concluíram o segundo ano do Foundation Programme na Inglaterra não ingressaram diretamente em uma formação especializada. Muitos passaram a trabalhar temporariamente como locally employed doctors ou foram trabalhar no exterior, o que reflete a escassez de vagas em relação ao número de formados.

3. Estados Unidos: graduação / pre-med + escola médica + residência

Estrutura do percurso

Graduação / pre-med — 4 anos de ensino superior em qualquer área, com disciplinas obrigatórias em biologia, química e física. Essa é a etapa preliminar antes da candidatura à escola médica. Nos Estados Unidos, ao contrário dos outros três países deste artigo, Medicina não é cursada logo após a escola.

MCAT — exame padronizado de admissão, com 4 seções e pontuação de 472 a 528. É obrigatório para ingressar na escola médica.

Escola médica (MD ou DO) — mais 4 anos. Os dois primeiros são principalmente teóricos e pré-clínicos; os dois últimos são compostos por rotações clínicas, chamadas clerkships. Por volta do meio do curso, os estudantes fazem o USMLE Step 1, que atualmente é avaliado como pass/fail, e não mais por pontuação numérica. Perto do final, fazem o Step 2 Clinical Knowledge (CK), que se tornou o principal indicador numérico usado na seleção para residência. A média da primeira tentativa entre formados nos Estados Unidos fica em torno de 248–250 pontos; a partir de 1º de julho de 2025, o critério mínimo de aprovação subiu de 214 para 218.

Match / residência — a distribuição para a residência ocorre por meio do algoritmo centralizado do NRMP, o National Resident Matching Program. Os estudantes enviam suas candidaturas pelo ERAS, participam de entrevistas do outono ao inverno, montam uma lista ranqueada de programas e recebem o resultado em março, durante a chamada Match Week. Em 2026, o Match Day ocorreu em 20 de março; esse ciclo foi o maior da história do NRMP, com mais de 53 mil candidatos e mais de 44 mil vagas.

Residência — dura de 3 a 7 anos, dependendo da especialidade. Clínica médica dura 3 anos, cirurgia geral 5 anos, e neurocirurgia 7 anos ou mais. Durante a residência, os médicos fazem o USMLE Step 3, o último dos três exames de licenciamento.

Fellowship — para quem deseja uma subespecialização mais específica, como cardiologia ou oncologia, são necessários mais 1 a 3 anos após a residência.

Particularidades para médicos formados no exterior (IMGs)

Médicos formados no exterior precisam de certificação ECFMG para participar do Match. A ECFMG, Educational Commission for Foreign Medical Graduates, confirma que a escola médica é reconhecida e que as etapas exigidas do USMLE foram aprovadas. Para IMGs, a competitividade depende da cidadania, do status de visto, da especialidade escolhida e do perfil do candidato. O NRMP publica estatísticas separadas para U.S. IMGs, non-U.S. IMGs e candidatos que precisam de patrocínio de visto.

Uma mudança importante entrou em vigor em 1º de julho de 2025: a prática anterior de reconhecimento mútuo entre os Estados Unidos e o Canadá foi encerrada. Formados em escolas médicas canadenses que se candidatam à residência nos Estados Unidos agora são considerados médicos formados no exterior (IMGs).

O que diferencia o sistema americano

A principal característica estrutural do sistema dos Estados Unidos é a separação entre uma graduação geral e uma escola médica independente. Por isso, o caminho até o início da prática médica é mais longo do que no Reino Unido ou no Brasil, onde a formação médica começa logo após a escola. Ao mesmo tempo, o Match centralizado torna a distribuição para a residência altamente transparente e padronizada, embora também extremamente estressante.

4. Brasil: graduação de 6 anos + residência, opcional, mas praticamente essencial

Estrutura do percurso

Graduação em Medicina — curso único de 6 anos após o ensino médio, sem uma graduação separada como nos Estados Unidos. O ingresso ocorre por meio do ENEM, o exame nacional; do vestibular, os exames de admissão de universidades específicas; ou de uma combinação dos dois. Nas universidades públicas, é comum o uso do SISU com base nas notas do ENEM.

Internato — os últimos 1,5 a 2 anos da graduação são dedicados à prática clínica dentro do próprio curso de Medicina. Essa etapa é semelhante aos clerkships dos Estados Unidos e não corresponde a uma fase de pós-graduação.

Registro no CRM — após receber o diploma, o médico se registra no Conselho Regional de Medicina do seu estado e recebe o direito de trabalhar como médico generalista, sem qualquer residência adicional. Essa é uma diferença fundamental em relação ao Reino Unido e aos Estados Unidos, onde trabalhar sem formação médica de pós-graduação é praticamente impossível.

Residência médica — formalmente opcional, mas na prática considerada o “padrão ouro” da especialização. Dura de 2 a 6 anos, dependendo da área. É regulada pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), que reúne os ministérios da Saúde, da Educação e da Previdência Social. O ingresso ocorre por seleção competitiva: prova escrita, às vezes prova prática e análise de currículo ou portfólio.

Especialidades de acesso direto — são aquelas em que é possível ingressar logo após a graduação, como clínica médica, pediatria, ginecologia e obstetrícia, cirurgia geral, psiquiatria e medicina de família e comunidade.

Especialidades com pré-requisito — por exemplo, cardiologia exige residência prévia em clínica médica, enquanto urologia exige residência prévia em cirurgia geral.

Título de especialista — ao concluir a residência médica, a especialidade é automaticamente reconhecida pelo CFM, o Conselho Federal de Medicina, e pela AMB, a Associação Médica Brasileira, sem exames adicionais. Uma via alternativa, mas menos prestigiada, é realizar uma pós-graduação lato sensu e depois fazer a prova de título da sociedade médica correspondente.

Segundo dados do final de 2025, o Brasil tinha mais de 7 mil programas de residência credenciados em mais de mil instituições, oferecendo cerca de 70 mil vagas em 55 especialidades médicas reconhecidas pelo CFM.

Reconhecimento de diplomas estrangeiros: Revalida

Para quem obteve formação médica no exterior, incluindo brasileiros que estudaram, por exemplo, na Bolívia ou no Paraguai, países populares por causa do menor custo e do ingresso mais simples, existe o Revalida. Trata-se de um exame nacional para reconhecimento de diplomas médicos estrangeiros, composto por uma etapa teórica, com 100 questões de múltipla escolha e questões discursivas, e uma etapa prática com estações de habilidades clínicas. A competição é muito difícil: por exemplo, em 2023, a taxa de reprovação entre formados em universidades bolivianas e venezuelanas ultrapassou 90%.

O que diferencia o sistema brasileiro

A principal característica do Brasil é a possibilidade legal de trabalhar como médico generalista logo após receber o diploma e registrar-se no CRM, sem nada equivalente ao Foundation Programme britânico ou ao caminho de residência via NRMP dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, embora a residência seja formalmente opcional, ela é praticamente necessária para quem quer atuar como especialista, concorrer a cargos públicos ou simplesmente competir no mercado de trabalho. Segundo a Demografia Médica 2025, cerca de 59% dos médicos registrados no Brasil possuem título de especialista, enquanto cerca de 41% permanecem como generalistas.

Conclusões práticas

Para estudantes de Medicina que consideram uma carreira internacional: as diferenças entre os sistemas significam que o diploma, por si só, quase nunca se “converte” automaticamente no direito de exercer a medicina em outro país. Quase sempre será necessário fazer um exame específico: PLAB no Reino Unido, USMLE com certificação ECFMG nos Estados Unidos e Revalida no Brasil. É melhor começar a se preparar com antecedência, e não apenas depois da formatura.

Para médicos que planejam emigrar: é importante considerar não apenas o exame, mas também a situação competitiva atual. No Reino Unido, a partir de 2026, a prioridade na distribuição de vagas de formação é dada a formados locais, o que dificulta a entrada de IMGs. Nos Estados Unidos, as mudanças nas regras de reconhecimento entre EUA e Canadá mostram que até sistemas cultural e linguisticamente próximos podem alterar as condições de reconhecimento mútuo de diplomas.

Para enfermeiros e profissionais de nível médio da saúde: é importante lembrar que, nos quatro países, a trajetória da enfermagem e a trajetória médica são caminhos educacionais fundamentalmente diferentes desde o início, e não etapas consecutivas da mesma escada. 

Fontes

Este artigo foi preparado com base em materiais dos sites do GMC, BMA, NHS England, House of Commons Library, NRMP, AAMC, AMA, portais educacionais orientados à ECFMG, CFM e CNRM do Brasil, incluindo portal.cfm.org.br e gov.br/inep, além de portais educacionais russos e atos normativos oficiais, incluindo o Ministério da Saúde da Federação Russa e os padrões federais de educação superior. Como esses sistemas mudam rapidamente, recomenda-se verificar as informações mais recentes nos sites oficiais dos órgãos reguladores antes de usar este artigo para decisões práticas.